Relatório Delors

Relatório Delors. Hoje em dia, grande parte do destino de cada um de nós, quer queiramos
ou não, joga-se num cenário em escala mundial. Imposta pela abertura das
fronteiras econômicas e financeiras, impelida por teorias de livre comércio,
reforçada pelo desmembramento do bloco soviético, instrumentalizada pelas
novas tecnologias de informação, a interdependência planetária não cessa de
aumentar, no plano econômico, científico, cultural e político.

Os pilares do conhecimento foram caracterizados pelo Relatório Delors
do seguinte forma:

Aprender a Conhecer – este tipo de aprendizagem objetiva sobretudo o
domínio dos instrumentos do conhecimento. Como o conhecimento é
múltiplo e evolui em ritmo incessante, torna-se cada vez mais inútil tentar
conhecer tudo. Além disso, os tempos presentes demandam uma cultura
geral, cuja aquisição poderá ser facilitada pela apropriação de uma
metodologia do aprender. Como disse Laurent Schwartz, um espírito
verdadeiramente formado, hoje em dia, tem necessidade de uma cultura
geral vasta e de possibilidade de trabalhar em profundidade determinado
número de assuntos. Deve-se do princípio ao fim do ensino, cultivar simultaneamente
essas duas tendências.31 Daí a importância dos primeiros anos
da educação que, se bem sucedidos, podem transmitir às pessoas a força e
as bases que façam com que continuem a aprender ao longo de toda a vida.
Aprender a Fazer – Aprender a Conhecer e Aprender a Fazer são, em
larga medida, indissociáveis. O aprender a fazer está mais ligado à educação profissional. Todavia, devido às transformações que se operam no mundo
do trabalho, o aprender a fazer não pode continuar a ter o mesmo significado
de preparar uma determinada pessoa para uma tarefa específica. 0
avanço tecnológico está modificando as qualificações. As tarefas puramente
físicas estão sendo gradualmente substituídas por tarefas de produção mais
intelectuais, mais mentais, como o comando de máquinas, por exemplo.
À medida que as máquinas se tornam mais “inteligentes” o trabalho se
“desmaterializa”. Além da competência técnica e profissional, a disposição
para o trabalho em equipe, o gosto pelo risco e a capacidade de tomar
iniciativas constituem fatores importantes no mundo do trabalho.
Acrescente-se que a criação do futuro exige uma polivalência, para o quê,
o desenvolvimento da capacidade de aprender é vital.
Aprender a Viver Juntos – trata-se de um dos maiores desafios da educação
para o século XXI. Como diz o Relatório Delors, a história humana
sempre foi conflituosa. Há, no entanto, elementos novos que acentuam o
perigo e deixa à vista o extraordinário potencial de autodestruição criado
pela humanidade no decorrer do século XX. Será possível conceber uma
educação capaz de evitar os conflitos, ou de os resolver de maneira pacífica,
desenvolvendo o conhecimento dos outros, das suas culturas, da sua
espiritualidade? Observe-se o quadro atual da violência na escola. Como
combatê-lo? A tarefa é árdua, diz o Relatório, porque os seres humanos
têm tendência para sobrevalorizar as suas qualidades e as do grupo a que
pertencem e a alimentar preconceitos desfavoráveis em relação aos outros.
Da mesma forma, o clima de elevada competição que se apoderou dos
países agrava a tensão entre os mais favorecidos e os pobres. A própria
educação para a competitividade tem contribuído para aumentar esse clima
de tensão, devido à má interpretação da idéia de emulação. Para reduzir
o risco, a educação deve utilizar duas vias complementares – a descoberta
progressiva do outro e o seu reconhecimento e a participação em projetos
comuns (educação para a solidariedade).
Aprender a Ser – o Relatório Delors não apenas reafirma uma das principais
linhas e princípios do Relatório Faure, como amplia a importância
desse postulado. Todo ser humano deve ser preparado para a autonomia
intelectual e para uma visão crítica da vida, de modo a poder formular seus
próprios juízos de valor, desenvolver a capacidade de discernimento e como
agir em diferentes circunstâncias da vida. A educação precisa fornecer a
todos, forças e referências intelectuais que lhes permitam conhecer o mundo que os rodeia e agirem como atores responsáveis e justos. Para
tanto, é imprescindível uma concepção de desenvolvimento humano que
tenha por objetivo a realização plena das pessoas, do nascimento até a
morte, definindo-se como um processo dialético que começa pelo conhecimento
de si mesmo para se abrir, em seguida, a relação com o outro.
Nesse sentido, a educação é antes de mais nada, uma viagem interior, cujas
etapas correspondem às da maturação contínua da personalidade. É urgente
que essa concepção de educação seja trabalhada por todos, pela escola,
pela família e pela sociedade civil que juntos se disponham a explorar e

Fundamentos da Nova Educação. Cadernos UNESCO — Série EDUCAÇÃO Volume 5